Palavreado
Páprica é pimentão. Fiquei indignado quando descobri, há alguns anos, em algum vídeo no YouTube. Eu sempre soube que cúrcuma era açafrão-da-terra, mas essa história da páprica, que ainda pode ser doce, picante ou defumada, me pegou de joelhos. Logo eu, que cresci chamando aipim de macaxeira, ao menos na casa da minha avó, bem como tangerina, carne seca e abóbora são mexerica, jabá e jerimum. Adulto, jabá já era outra coisa.
Engraçado isso de “casa da minha avó”. Chamava assim mesmo quando meu avô era vivo: ele partiu uns 20 anos antes dela. Era uma tradicional família suburbana. Ele, um homem negro, só com o ensino fundamental completo, ajudou a construir Brasília. Ela, nordestina, técnica de enfermagem, tinha personalidade pulsante. Ao mesmo tempo em que era muito vaidosa e gostava de estar com cabelo e unha arrumados para ocasiões especiais, o que também incluía consultas médicas e prova de vida no banco, era completamente desapegada de pudor na vila onde moravam – ia buscar a mim e ao meu irmão na quadra onde estourávamos o dedão do pé vestindo apenas sutiã e enormes bermudas manchadas de água sanitária. Boca suja que só, tolerava meu palavreado.
Tirando o fato de chamarem, ao outro lado da Baía de Guanabara, “joelho” de “italiano” – o que eu acho um erro –, aprecio a nossa fascinante habilidade de travestir de sentido as mesmas palavras. Quando o extinto grupo Bonde do Rolê, por exemplo, remixou as “Águas de Março” de Jobim, “pau” e “pedra” ganharam conotação, digamos, adicta. Eu, que não escuto muito bem, adoraria entender por que aparelhos auditivos não têm os mesmos benefícios fiscais que as órteses e próteses ortopédicas, já que também são próteses, mas auditivas.
Longe de mim tentar diminuir a força que têm as palavras, mas não é porque se usa em determinada expressão que se torna verossímil. Não é porque as bets propagandeiam “aposta segura” que o brasileiro deixa de perder caminhões de dinheiro. Ou que tentam colar a pecha de “sustentável” em algum produto ou atividade que estamos desacelerando nossa extinção. A política, mais um exemplo, é um prato cheio de contradições: um partido “novo” com ideias velhíssimas, o Partido Progressista reúne algumas das figuras mais retrógradas e o Partido dos Trabalhadores, eventualmente, machuca justamente quem carrega o país nas costas (spoiler: não são os empresários).
Domingo desses, voltando de um longo passeio com minha cadela, deparei-me com a imagem de um pai orgulhoso vindo na direção contrária. Quem já viu ou é um pai orgulhoso, sabe do que falo. A autoconfiança vestia uma daquelas camisetas que não amassam, na cor azul-marinho, óculos aviador com lentes escuras e peito estufado. Empurrava um novíssimo carrinho de bebê. Minha cadela tentou cheirar a roda do veículo e, ao puxá-la de volta, percebi: era um bebê reborn. Definitivamente, não há sentido que contemple um bebê reborn.
