A empresa de energia
Faltou luz esses dias. Só no meu apartamento. Havia acontecido a mesma coisa no apartamento do lado uns dias antes. A empresa de energia só veio dois dias depois. Desci as escadas correndo porque senti cheiro de queimado. No quadro geral, fio e disjuntor derretidos. Liguei para a emergência da empresa de energia, ao mesmo tempo em que acionei um eletricista do seguro residencial pelo aplicativo do banco.
Eram dez da manhã e minha mulher, aparentemente, terminava um longo banho. Disse ela que já estava acabando. Tinha luz e, de repente, não tinha mais. O eletricista só veio depois do meio-dia. A empresa de energia, nem estimativa. O profissional sentenciou: isso aqui “só a empresa de energia”. Comecei a ficar com um certo pânico: acabou a luz justamente no dia em que eu decidi fazer o famigerado home office, que já ensaiava havia semanas. Minha mulher precisou ir para a casa dos pais. Precisava de luz para atender seus pacientes online. Lembrei de quando abri mão da minha terapia online, um tempo depois da abertura pandêmica. Sentia falta de deitar no divã e não numa cadeira de escritório que me enrijece, mas minha analista havia se mudado para Curitiba na fase mais aguda da Covid. E morro de preguiça de começar tudo de novo com outra pessoa.
As compras do mês ainda se amontoavam na despensa e no freezer. Temi pela comida fresca. O vizinho do apartamento ao lado ofereceu-me uma extensão para que eu pudesse ligar ao menos a geladeira, exatamente como tínhamos emprestado nos dias antes em que eles ficaram sem luz. Uma preocupação a menos. Mas nada da empresa de energia. Liguei, registrei pelo aplicativo. Seguidas vezes. Informei risco de incêndio. Mais de uma vez. O cheiro de queimado não cessava, mesmo com o disjuntor desligado, parcialmente derretido e com o medidor parado. Ainda assim, não podiam dar estimativa.
Semanas antes, havia pedido ao seguro alguém que trocasse o sifão da pia da cozinha. O bombeiro hidráulico era o mesmo eletricista que diria que “só a empresa de energia”. Ou ele sabe muito ou não sabe de nada, pensei. O vizinho do apartamento ao lado me deu o contato do eletricista que eles chamaram dias antes. Ele duvidou do diagnóstico apresentado, mas concordou que “só a empresa de energia” ou poderia dar um jeito, que poderia acarretar numa multa e coisa e tal. Resolvi aguardar a empresa de energia.
Começa o jogo da Argentina. Acompanho como posso pelo celular, enquanto reclamo com – e – da empresa de energia. A oitava atendente não podia dar nenhuma estimativa. Gol da Inglaterra. Fiquei sabendo pela gritaria no bar da esquina. Consigo ver o replay usando o wi-fi do vizinho de dois andares acima. Enquanto os ingleses recuavam, previa uma virada em alguma jogada genial de Lionel Messi. Não era bem o que eu queria: quando não é o Flamengo jogando, costumo torcer mais pelo futebol do que sofrer por quem está em campo. Virada histórica, mais uma. E nada da empresa de energia.
Já escuro, ligo a lanterna do celular. Consegui carregar um pouco na extensão que o vizinho emprestara. Sentado no chão da cozinha, começo a rir desenfreadamente daquela situação um tanto quanto decadente. Minha cadela ao lado, tentando entender do que eu ria. A fome bateu e não tinha como esquentar a comida. Ligar o microondas na extensão já era demais, na minha opinião. Minha mulher chega pouco antes das sete e, horas depois, jantamos à luz dos celulares uma pizza que mal descia. Entre uma mordida e outra, registrava mais uma ocorrência na empresa de energia.
Depois de dormir algumas horas, pensando na empresa de energia, puxo uma extensão ainda maior para conseguir ligar o computador e trabalhar. Os boletos não esperam a luz voltar. Relatório sendo finalizado e toca o interfone: era a empresa de energia. Os dois que vieram eram muito simpáticos para aquela hora da manhã. Contaram que houve um pico de tensão que derreteu o disjuntor. Fizeram alguns testes e a luz voltou por um tempo. Respiro aliviado. Mas o disjuntor precisava ser trocado. Isso eles não faziam, disseram, mas se eu quisesse eles podiam fazer. Fizeram. E também confessaram que a empresa priorizava os chamados de acordo com o CEP, ainda que houvesse risco de incêndio. Uma das primeiras atendentes do dia anterior disse ao telefone, inclusive, que era só chamar os Bombeiros caso eu percebesse uma piora…
Peguei-me pensando em tudo que me desgostava no apartamento. Paredes por pintar, piso por trocar, tapete da sala por substituir. Essas coisas. Ali, com a luz restabelecida, tudo parecia menos angustiante. Liguei a cafeteira e botei uma música no modo aleatório do aplicativo de música. Depois de Gil cantar “Esotérico”, a banda O Terno, num refrão, dizia “Tudo está melhor do que parece / Eu olho e vejo tudo errado. Faz tempo que está tudo certo”. Dou a mesma risada desenfreada do chão frio da cozinha. Não posso romantizar a precariedade, mas até que aquele refrão não estava de todo errado.
