Pessoa com Deficiência

Como assim, surdo?

Esta foi a frase que me marcou quando anunciei, nas minhas redes sociais, em outubro do ano passado, que eu era surdo. Era hora de “sair do armário”. A verdade é que eu não sei exatamente de quando vem a minha perda auditiva, sei que ela sempre esteve ali, disfarçada, até que se tornou insustentável.

Uma das coisas que mais ouvi ao longo da vida foi que eu tinha “audição seletiva”. Mesmo que não intencional, tinha seu pingo de verdade. De acordo com a última audiometria, tenho perda severa nas frequências mais altas e moderada nas mais baixas. Isso quer dizer que, sem próteses, não escuto o telefone e o interfone tocando, os passarinhos cantando ou tec-tec dos dedos no teclado enquanto digito.

“Que barra isso, logo você que gosta tanto de música”. Foi o que disse um amigo músico quando leu minha publicação. Como pode alguém que toca um instrumento, compõe, escreve a respeito e é DJ pode ser surdo. Bem, como muitos surdos, aprendi medidas compensatórias. Os sons mais agudos eu sabia, inconscientemente, que eram mais “abafados”, e estavam ali. Então, me treinei para que fosse natural. Aprendi a ler lábios e conseguia conversar naturalmente, dependendo do ambiente.

Ao longo dos anos, fui me virando como podia. Sempre mais alerta que os ouvintes normais, com mais cuidado ao atravessar a rua, por exemplo, por medo de não escutar uma buzina. Sempre muito atento às chamadas em filas de banco ou a outros alertas sonoros, como das estações do metrô. Eu não percebia como me privava de muitas coisas porque sabia que não conseguiria escutar bem. Ver filmes dublados ou nacionais era sempre fora de cogitação. A última novela que assisti foi Avenida Brasil. Sinceramente, a dimensão exata da surdez só vem depois que se inicia a reabilitação auditiva.

O grande ponto de virada foi no teatro, uma das minhas paixões e que estava me afastando – foi minha companheira, Mayra, quem me trouxe de volta às plateias. Sempre pegando lugares mais próximos ao palco ou preferindo grandes teatros por seus equipamentos de som. “Antígona”, com Andréa Beltrão, foi o estalo final que eu precisava. Curtíssima temporada, muito difícil de conseguir um lugar, teatro pequeno. Fui assistir no último dia e sentei na última fileira. Foi extremamente frustrante não conseguir entender metade do texto. A solidão que eu senti, mesmo com meu amor bem na poltrona ao lado, foi indescritível. Todos ali contemplando a grandeza daquela atriz e daquele texto e eu me sentindo cada vez mais deslocado e triste.

Bem, otorrinolaringologista marcado. Fiz a audiometria e ali estava a recomendação para o uso de aparelhos auditivos. A médica explicava sobre neuroplasticidade, qualidade da fala, entre outras coisas e eu só pensava em como pagar por aquilo. Sempre soube que esses dispositivos eram extremamente caros. Pensei em recorrer ao SUS, no entanto, a greve na saúde municipal, que ainda levaria alguns meses, impedia que eu cumprisse o protocolo. Eu estava determinado e fui procurar atendimento privado. Depois de pesquisas e testes, encontrei o modelo ideal para minha surdez e, bem, é caro mesmo. Dei sorte de comprar em uma super promoção da Black Friday. Apesar disso, uma coisa eu posso testemunhar de uma forma bem clichê: “não há dinheiro que pague”.

A surdez tem muito a ver com vergonha e vulnerabilidade. Talvez esse seja o grande estigma de uma pessoa com deficiência. Quem quer se sentir fraco ou incapaz? A sociedade não nos vê. E quando vê, nos descarta. Felizmente, existe também a psicanálise, que pôs em questão a minha forma de enfrentar essa situação. Eu sou surdo, sim e sempre tive orgulho das minhas conquistas, mesmo convivendo com uma deficiência invisível. Representatividade, palavra da moda – ainda bem!, também foi fundamental. Obrigado, Paula Pfeifer e seu Crônicas da Surdez! A convivência com Mayra, que merece um capítulo à parte, e a hemiparesia dela, sendo uma pessoa e profissional fora de série, ajudou a escancarar como é normal, só que diferente. E, bem, aprender a conviver com as diferenças é pré-requisito para qualquer cidadão.

Usar aparelhos auditivos, ou tecnicamente AASI (aparelho de amplificação sonora individual), devolveu-me uma qualidade de vida que nem lembrava que existia. Só outros surdos em reabilitação sabem exatamente do que estou falando. Na música, então, perceber nuances que já estavam esquecidas, é sempre emocionante. Do telefone tocando, não sentia falta mesmo. Mas como é bom ouvir!