Conta

Como a cidade pode ficar em silêncio em tão poucas horas? Por que todos precisam dormir no mínimo seis horas? Como o dia pode ficar escuro e se tornar noite? E se todos fingíssemos que o dia é dia, mas pode ser noite? Como a gente pode deixar de se gostar em tão poucos meses? […]

Golfinhos desenhados na sua bolsa

Era um sushi bar meio caído onde eles resolveram marcar o primeiro encontro. Depois de algumas “combinações” no aplicativo de encontros, ela achou a barba dele bonitinha, apesar do nariz proeminente. Chegou uns oito minutos depois dele. Alta, usava um vestido estampado, com um cinto grande e uma bolsa também estampada; ele, um pouco mais […]

Para Lisa

Hoje eu precisei de alguém que eu não conhecia. E foi como atravessar a Presidente Vargas de olhos vendados: o vento batia e eu respirava até inflar os dois pulmões por completo. Típico de quem escapa por um fio. Hoje eu precisei de alguém e seu nome é Lisa. Que me interrompe quando eu falo. E me […]

No Natal

Alegorias de um discurso pré-programado. Desfiles de obviedades. A última moda é ser careta. Tanto faz se eu morrer no Natal. Os cachorros continuam fodendo pernas e mijando em qualquer pé de cadeira que farejam pela frente. As pessoas da família choram. Uma vez por ano, choram. E bebem, bebem, bebem. As pessoas da família, jardim […]

Aracaju

Para a minha avó Maria Euda e suas histórias da capital sergipana que vieram morar no Rio de Janeiro Tio Miguel era um apostador contumaz. Cavalos, loteria federal, bingo e, especialmente, jogo do bicho. Todas as manhãs, perguntava a todas as crianças da casa – eram sete – com que bicho haviam sonhado na noite […]

Escrevo

Uma das perguntas mais frequentes que me fazem é: por que escrevo? Para começar, parafraseando Bukowski, para me proteger da completa loucura. Então escrevo porque é melhor que falar. A urgente necessidade em ser ouvido se esvai enquanto deslizo os dedos pelo teclado. É foda pensar que nem sempre haverá alguém que ouça e entenda […]