O Sábio

Era uma aldeia pequenininha, de flores e cactos e terra cheirosa. Um pouco mais pobre que a aldeia vizinha, onde eu nasci. Foi num domingo, ao fim da tarde, que fez-se o Sábio seu guardião do Antigamente. Ele me falava olhando nos olhos, com cheiro de mato e voz de passarinho, acariciando a barba, que a novidade me tocaria.

Então, eu quis saber mais desse guardião. Perguntei de porta em porta e não encontrei uma certidão qualquer. Nenhum negativo, matéria, registro. Não havia nada além da vizinha, que falava a todos os cantos que com ele já convivia desde sempre. Dizia ela que o velho vinha mesmo do Antigamente, e que seus filhos eram dele também.

E a cada domingo, assim, de tardinha, eu me questionava se a pobre vizinha era tudo aquilo que a minha vozinha me contou: entendia de parto e perfumaria, que era velha para conhecer o Sábio – desde criancinha.

Até que a coragem me tomou de rasteira. Porque tomar coragem é para gente ligeira. E minha avó disse que atabalhoado eu era desde antes do desmame – com essas palavras. Foi na esquina de casa que eu confrontei o guardião e, assim como ele, olhava em seus olhos. Foi noutro domingo, assim, de tardinha. Puxei-o no braço e, tão assustado, evaporou.

Levei a culpa na aldeia todinha! Todos me apontavam, chutavam o vento porque não podiam me chutar, achava eu. Quando chegava do trabalho, na aldeia vizinha – aquela em que morei quando criancinha – me escarravam e lamentavam. A culpa vinha e me consumia, e andando eu fui até a beirinha da ponte, de onde saltavam ao lago as crianças sadias. Ao me verem chegar, corriam. Pobres crianças, apenas seguiam as ordens dos pais. Eles todos – até os avós – me condenavam.

A aldeia inteira se avizinhava, quando eu estava ali, na beirada. E eu recuava até onde dava. Fechei os meus olhos, rezei baixinho. Com cheiro de mato e voz de passarinho, foi aí que toda aquela gentinha viu: o Sábio era eu! O Sábio era eu! E todos me vinham pedir conselhos. E desculpas. Como um vento que no rosto afaga, eu percebi que era toda minha a culpa, quando não falei do Antigamente nas tardes em que me ouviam, permanentemente atentos. Presentes, agrados, de onde brotava tanta coisa naquela aldeia pobrinha? Acontece que o Sábio era eu, sim, porque mantinha um mistério: mais ouvia do que falava.

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