De quanto estamos falando?

Todos acabavam de sentar à mesa de tampo de vidro, na copa, quando toca o telefone fixo. Insistente, toca três, quatro vezes e ninguém se mexe. É que a hora da refeição é mesmo sagrada, e “hora de almoço não é hora de falar no telefone”. Silêncio e a rúcula vai de prato em prato. Então, começa o celular, que quando no “modo silencioso” faz muito mais barulho que qualquer ringtone; o gaveteiro parece tremer por completo.

– Puta merda, mas quem será o filho da puta que não respeita nem a hora da comida? Eu só que… Alô?

Do outro lado, uma respiração ofegante:

– Caralho, Lúcio! Não tá em casa? Tô ligando pro teu fixo e ninguém atende!
– Tô almoçando, rapá!
– Mas tá em casa?
– Tô!
– Então sai daí agora. Os caras saíram aqui do prédio, estão indo cumprir mandado aí nesse fim de mundo!
– Mas aqui em casa?
– Só pode ser, né meu compadre? Eu vi o nome da tua rua, só pode ser aí.

Ele desliga o telefone e toda a família olha atordoada. O filho mais novo já esboçava um choro, quando o patriarca grita pro mais velho:

– Vitão, traz o 38.

A mulher arregala os olhos como os dois ovos de codorna que restavam por cima da rúcula. Vitão levanta, correndo e tropeçando no próprio chinelo. Volta com o revólver prateado.

– Filho, vamos ali na sala que eu preciso falar com você.
– Lu-ci-mar, o que você acontecendo? Quem era no telefone? – berra Lúcia a apenas um metro do marido.
– Lu, preciso conversar com meu filho. Tu sabe que eu odeio quando me chamam de Lucimar. É Lúcio, porra! Vai por mim, quanto menos você souber, é melhor. Vitor, pra sala agora.
– Não vai mesmo. Só por cima do meu cadáver. E é Lucimar. Só porque eu sou Lúcia, tu tem que ser Lúcio?
– Senta a porra desse rabo gordo aí, meu amor. Senta a porra do rabo, é melhor.

O moleque de quase quinze anos não esbanjava qualquer reação e foi pra sala, logo atrás do seu velho.

– Filho, eu preciso que você faça uma coisa por mim. Se tivesse jeito, eu não te pedia. Mas você já é um homenzinho, porra. Já toca punheta há muito tempo. Tá comendo mulher? Cadê a Juliana? Bem, agora não é hora. Eu quero que você me dê um tiro. Um tiro na cabeça, aqui bem no meio da testa. Tu sabe segurar essa merda?
– Pai, o senhor tá pedindo pra eu te matar?
– Claro, se eu me matar eu não vou pro céu, não é? Moleque, tu já foi mais esperto. Foi pra isso que paguei aquela merda de primeira comunhão?
– Pai, eu vou ser preso?
– Vai não, moleque, tu é de menor. Sabe que menor nunca fica preso, não é? Então, toma essa porra e segura com cuidado.

Sirenes – muitas delas – começam a se aproximar, ao final da rua. Vitão empunha aquela arma, fazendo cara de homem, como seu pai havia ensinado.

– Pai, por que o senhor quer fazer isso?
– Tu vai perguntar isso agora? Com a polícia chegando? – Lucimar respira e continua: Filho, eu fiz umas coisas bem ruins e não posso… Imagina eu olhar pra cara da tua mãe todo dia com ela sabendo o que eu fiz?
– Mas o que o senhor…
– Atira, porra! Atira logo!

Os cachorros do vizinho começam a latir. As viaturas estão a mil. O moleque entra em pânico e atira. Pro alto.

– Porra, como é que tu me erra assim, sentado na minha frente?

Toca a campainha. Lúcia vai correndo atender e vê o vizinho algemado. Na hora, lembrou daquele cheirinho de maconha que sentia todo fim de tarde.

– Senhora, viemos cumprir um mandado na residência ao lado e ouvimos um disparo. Precisamos averiguar.
– Mas não foi aqui não, seu guarda.
– Senhora, eu ouvi. Com licença, por favor.

O policial e um colega percorrem o quintal e encontram pai e filho ainda sentados. A essa altura, o revólver já havia trocado de mãos novamente, voltando para Lucimar. A criança chora na cozinha.

– Senhor, estão todos bem? O que está acontecendo?
– É que… eu ia ensinar meu filho a limpar o 38 e… O vizinho foi preso? O mineiro?
– Senhor…
– Lucimar, pode chamar de Lúcio.
– Seu Lúcio, coloque a arma no chão. O senhor tem autorização para…
– Tenho não, eu peguei emprestado com meu cunhado, tava dando muito assalto aqui na região…
– Seu Lúcio, infelizmente vou ter que conduzir o senhor à delegacia.
– Mas “seu polícia”, não tem conversa? Meu cunhado trab…
– O senhor está tentando subornar uma autoridade policial?
– Que subornar o que! É uma ajuda pro aluguel…

O policial olha pro colega, abaixa a cabeça…

– De quanto estamos falando?
– Eu tenho 100 pratas aqui na carteira, mais uns 60 na da minha mulher.

O policial, ainda de cabeça baixa, faz sinal com as mãos para o colega se aproximar mais um pouco.

– Prende esse filha da puta, Corrêa. Prende, usa minha algema. Burro eu ainda aguento, agora mão de vaca já é ser filha da puta demais. Vai dar o cu pro maconheiro do vizinho dele.

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