Tava com medo, tava fudido

Escovei o rosto, lavei os dentes e levantei. Finalmente, levantei. Acendi o último cigarro com ajuda do penúltimo. Era madrugadinha de domingo e eu coloquei o despertador para exatamente uma e quarenta e sete. Devia ter comprado outro maço antes do almoço. Para quem está escrevendo um livro, há de se ter alguma disciplina e ter uma hora quase exata para adiantar uns parágrafos é o mais organizado que consigo ser.

É o segundo livro que começo neste ano e estou trabalhando com deadlinedesta vez. Eram duas e cinco da manhã e não havia mais nenhum cigarro. Não havia mais lugar aberto, um boteco que fosse para alimentar meu vício e fazer companhia ao Celso Blues Boy, que chorava suas notas — eu só escrevo ouvindo música.

Penso demais nas esquinas do tempo…

O telefone toca uma vez. Ignoro. Toca duas. Respiro. Dez minutos depois, toca pela terceira vez. Cadê meu cigarro pra atender aquela ligação às duas e sete da manhã? Escovei os dentes. Vai que passa a vontade, pensei. Quarta vez que ouço o vibrar do celular e não estava mais puto, mas com medo: “Meu cachorro morreu”, foi a primeira coisa que pensei. Ele estava meio doente, com febre e coisa e tal (como eu). Se alguém souber uma onomatopéia para a vibração do aparelho, que me diga — porque ele tocava pela quinta vez a essa altura. Comecei a andar pela casa com medo de me aproximar da tela que acendia e apagava, acendia e apagava, acendia e apagava. Meu cachorro morreu e eu ainda não tive filhos, como tanto quero. Já estou com quase 30 anos. E como estou sozinho! Eu sei, a madrugada dá essa impressão, às vezes.

tava com medo, tava fudido

Como eu disse, esse é o segundo livro que começo e já estou ficando com raiva dele. É o cigarro que acaba, é o telefone que toca, a fome que bate, o computador que trava e a cabeça que dói. Felizmente, inspiração é o que não falta e até estou às turras com uma citação da Bíblia — comecei a achar muito pedante ultimamente qualquer citação, de qualquer coisa que seja. Já estou com quase 30 e não posso me dar ao luxo de errar tanto mais e o primeiro livro era tão cafona, gente… É, sou meio cafona.

O telefone não tocou mais, outras três músicas tocaram e eu olhava o cinzeiro com aqueles dois últimos cigarros. Daqui a pouco, começo outro capítulo. A noite foi punk. O cachorro já está melhor, eu também. O telefone tocando era o tal recurso “Soneca”, para quem não precisa escrever.

Música que inspirou:

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