Contando estrelas

Quando eu olhava para cima, não via o ventilador balançando e ameaçando cair sobre nós dois. Não via nem as traças em volta dele, que não somem nem com a faxina semanal. Eu via o céu. Porra, eu juro que podia contar estrelas dentro das quatro paredes do meu quarto. Lembra que você falava “Úrsula Maior”?

Eu devo ter batido mais a cabeça do que as histórias da minha mãe contam sobre a minha infância. Por mais que eu tente, não consigo ter essa visão cristalina que você ou meu irmão tem sobre essas coisas de antigamente. Eu lembro é do cheiro de sapoti que tinha na casa de Realengo; eu nunca mais vi sapoti na vida. Pra você ver, eu lembro do pingente que você usava quando nos beijamos pela primeira vez, mas o que vestíamos? Nadinha (não estávamos nus, só não lembro a roupa). Esqueço os motivos de discussão todos, os outros que precisam me lembrar de ser rancoroso.

Acontece que eu já cansei de pedir desculpas. Não sei quando nos tornamos escravos do tempo, mas aquelas promessas de que tudo ia melhorar não deram exatamente certo. Não são dois, três anos que fazem quando nos colocaram pra jogar no mesmo time, mas o tal do entrosamento desceu o túnel e não voltou mais.

Quase todas as noites, tranco a chave essa velha porta de madeira — um hábito do qual nunca me livrei — mesmo que nada (a não ser a minha cabeça) possa atrapalhar meu sono. Deito em outra cama, mas no mesmo quarto (aquela estava caindo aos pedaços) e ligo o ventilador, até quando está frio. Sim, frio no Rio de Janeiro, acostume-se com isso. Eu aprendi a não ser saudosista, sabe? Dane-se o pé de sapoti. Mas que falta eu sinto de falta de rir da Úrsula.

*Texto publicado originalmente no Medium.

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