Para a minha avó Maria Euda e suas histórias da capital sergipana que vieram morar no Rio de Janeiro

Tio Miguel era um apostador contumaz. Cavalos, loteria federal, bingo e, especialmente, jogo do bicho. Todas as manhãs, perguntava a todas as crianças da casa – eram sete – com que bicho haviam sonhado na noite anterior. Como se não bastasse, antes de bebericar, atirava um palito de fósforo aceso à xícara de café: ali se revelaria um possível vencedor. Certa vez, quando deu cabra de um sonho meu, o tio mandou trazer água, que já não víamos havia três dias.

Aracaju não era uma cidade fácil no começo do século passado. Quando voltei lá, depois de quase 20 anos morando no Rio, minha tia Mimi, que ajudou a criar a mim e à minha irmã Lurdinha, já completava 10 anos de morta. Tio Miguel agora era o maior bicheiro da região. Diziam que carregava no pescoço todo o ouro de um navio português naufragado à beira da Atalaia Velha. De longe, soube que, quando começou a ganhar muito dinheiro, juntou as trouxas da casa de Vovó Edith e se mandou pra São Cristóvão. Só aparecia no Natal, quando enchia todas as novas crianças – que se multiplicavam – de tudo que era mais moderno.

Era 22 de dezembro e o pátio do Santa Maria estava quase lotado de aviões Douglas da Varig, Panair do Brasil, Vasp e Lóide. No saguão do aeroporto, não se falava em outra coisa que não da nova capital, inaugurada meses antes. Todo mundo ali tinha mandado pelo menos um parente pro Planalto Central. Ao meu tio, ofereceram a vaga de peão quando ainda dependia da pensão de vovô, mas ele tinha plena fé no jogo e em Nossa Senhora da Conceição. No desembarque, os recém-chegados paravam pra ver um Chevrolet Bel Air vermelho e sua capota branca. Tio Miguel havia vendido a casa e voltado ao chão de terra batida, apesar do carrão em que me esperava.

O bom humor do tio durou pouco mais de um dia. Quando perguntei o que tinha acontecido, era falta de sua irmã Miguelina. Só ele e vovó usavam esse nome e uma vez tentei dizer “tia Migue…” e fui repreendida com olhares vis: “se tu disser mais uma vez, te encho o bucho e vai se ver com a Pisadeira!”. Anos depois, vim a descobrir que se tratava de uma velha que pisava na barriga das pessoas quando iam dormir de barriga cheia, deixando com falta de ar. Mesmo sem saber, a cabeça da criança já tinha certeza de que era coisa ruim e foi o dia em que mais rezei antes de dormir.

Não eram duas da tarde e tio Miguel já entornava a segunda garrafa de vinho do porto. Era antevéspera de Natal, tudo podia na época de dia santo. Inclusive me culpar pela morte de tia Mimi, enquanto eu preparava a ceia desde as sete da manhã: “Você foi embora ser metida a besta e deixou tua tia doente aqui”. O chão era vermelho da terra, mas a casa era limpa e muito bem arrumada pela Isidora, menina que a tia pegou pra criar e acabou cuidando de tudo. “Não deixa ele falar assim contigo, não! Tu sabe que esse bebum perdeu o dinheiro todo? Só sobrou esse carro aí, que ele não vende nem por um Diabo!”. “Olhe aqui, Miguel, cê não vem se criar pra cima de mim, não”. A pequena era valente. E o tio se mandou pra rua continuar a bebedeira na venda do Ronaldão.

No dia seguinte, voltava ele como se nada estivesse acontecido, de camisa estampada vermelha e marrom, calça de linho e sapato de couro. Puxo uma garrafa da caninha e ofereço ao tio: “Por que você nunca foi me visitar no Rio?”. Ele abaixa a cabeça e me olha feito um cachorro com fome: “Sabe o que é? Tenho medo de voar”. “Mas tem ônibus também, tonto!”, respondi eu, prendendo o riso. “A viagem é comprida, né? E se der vontade de… Qualquer dia eu vou, eu vou!”. Como era estranho não ver aquele cabelo trançado pedindo a bênção!

Semana passada, mandei meu neto jogar no bicho. A mãe dele não gosta que eu faça essas coisas, mas ela não precisa ficar sabendo. Ele ganha pipa e fica todo mundo feliz da vida. Joguei o palito no café e não deu outra: cabra! Aqui não costuma faltar água, mas a gente sempre sente falta de alguma coisa.

*Publicado originalmente para o concurso Brasil em Prosa. Está à venda na Amazon para a plataforma Kindle. O texto também está disponível no Medium.