Jorginho Tá Tranquilo

Da última vez que vi Jorge, conversamos sobre filhos. Ele, aos 29 anos, tinha decidido que não seria pai. Um sujeito que falava baixinho, mas alto o suficiente para que eu pudesse ouvir sem que ele precisasse repetir, decidiu que não colocaria uma criança no mundo pra não incomodar os vizinhos. “Já viu como criança chora nos primeiros meses de vida?”, perguntava ele na maior naturalidade.

Torcia pelo América, o time mais querido pelos cariocas, depois do Flamengo. Apesar de toda sua família ser botafoguense, sempre disse que seu Mequinha não fazia mal a ninguém. Quando assistia aos jogos, o volume da televisão nunca passava do nível “baixíssimo”. A mãe, Cleuza, jamais o ouviu gritar gol.

Jorge era daquele tipo prestativo. Convidar o sujeito para uma refeição na sua casa, era garantia de alguma sobremesa gostosa e louça lavada, mesmo que um batalhão tivesse sido se servido. Em seus aniversários, calculava onde morava cada convidado e marcava o local mais acessível pros amigos, mesmo que um pouco distante de sua própria casa.

Na época da escola, Jorge aprendeu a escrever o mais rápido que podia, assim, ele não seria o último quando o professor perguntava se poderia apagar o quadro negro e prosseguir a aula. Apelidado de “Jorginho Tá Tranquilo”, era chamado assim porque, quando faziam algo que poderia chateá-lo, ele respondia “tá tranquilo”. Jorginho nunca colocou um apelido nos colegas.

Certo dia, Jorginho Tá Tranquilo se apaixonou. Mariza, de tanto não ser incomodada, acabou sem saber exatamente o que podia incomodar. Passou a reclamar se ele não ligava depois do almoço. Ou se ligava antes do almoço. A namorada se queixava de Jorge não tentar nada diferente e, quando tentou, deu o pé na bunda do rapaz. Nunca soubemos o que ele fez. Primeiro, porque Mariza odeia a nós, os amigos dele. Depois, porque Jorginho não queria nos incomodar com suas histórias tristes.

Jorge era realmente uma mãe: sabia quando os amigos não estavam bem só de olhar nos olhos, igualzinho às progenitoras. Mês passado, Dona Cleuza me ligou bastante alterada, com a pior notícia. De tão introspectivo, ninguém nunca tinha reparado que ele estava passando por uma depressão daquelas. Tirou a própria vida na porta do Instituto Médico Legal, provavelmente pra não dar muito trabalho. Sua mãe teve que ir reconhecer o corpo às três da manhã, debaixo de um temporal que alagou toda a Praça da Bandeira. Parece que o camarada não pensou em todos os detalhes. Tá tranquilo, Jorginho!

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