O abraço de um braço só

O telefone tocava pela terceira vez em quatro dias. Poucas pessoas tinham seu número residencial, no máximo dez – até nos cadastros de lojas informava um número falso para nunca ser incomodado.

O disco pulou ao primeiro toque. Sabia exatamente quem estava ligando, mesmo o aparelho tendo mais de 30 anos. Tinha acabado de sair do banho e penteava o cabelo com os dedos, enquanto o espelho se desembaçava e revelava. aos poucos, seu rosto. Morava sozinho, mas raramente se permitia à nudez, enrolou-se na toalha rapidamente antes de atender à ligação.

O telefone tocou e já conhecia o som que sairia de lá. Seu coração se comportava como um martelo dentro do peito, prestes a rasgar a pele a qualquer momento. Detestava falar no telefone, mas ouviria o que houve nos últimos dez anos. Lembraria da ausência total de cumplicidade. De como era fácil manter as aparências com abraços – de um braço só – para as fotos nas redes sociais.

Lembraria em seguida da dor que o vazio provocava. O nada dói. Revia tudo, e nada. Por ultimo, lembraria de sorrir.

Dizem que ele não é ambicioso. Como pode alguém que não é ambicioso ter como único objetivo não ser mais um que passou?

O telefone tocou e ninguém disse nada.

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