O senhor aceita ajuda?

Quantas vezes você já avistou um amigo de longe e quis gritar por ele, pra que também o visse? Bem, se esse amigo for este que escreve, nem se dê ao trabalho. Além de andar, na maioria das vezes, completamente desligado pelas ruas, eu sou meio surdo. Quem me conhece há mais tempo, dirá que eu tenho ouvido “seletivo” – já me disseram que ouço quando quero, mas não é bem assim. Costumo, inclusive, entender palavras diferentes das que me dizem.

Pra falar a verdade, sou mais que “meio surdo” e uso até da leitura labial para conversar. Não se espante se olho fixamente enquanto batemos papo, não sou um psicopata. Talvez um pouco doente, pois comemoro se alguém tem o mesmo “defeito” que eu. Não contem pra ela, mas quando minha avó começou a ficar surda pra valer, senti certo alívio.

Há cerca de um ano, andava pela Glória, o bairro que demarca o começo da Zona Sul do Rio. Uma de suas principais ruas é bastante larga e é necessário apertar o passo para atravessas as pistas, visto que o sinal também fecha rápido. Foi quando do outro lado, um velhinho, já com certa dificuldade para andar, tentava correr mais do que as velhas pernas permitiam. Ele queria aproveitar o sinal de pedestres, que já piscava, prestes a fechar. Na iminência de mais uma tragédia envolvendo idosos e veículos automotores, corri até ele:

– O senhor aceita ajuda?
– Aceitar Jesus? Mas eu já aceitei Jesus há muito tempo, só falta ele me aceitar também!

Mal sabe ele que o filho do Senhor já o aguardava de braços abertos. Nunca mais o vi por lá, mas naquele momento, senti uma certa ligação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *