Eletricidade

Que mundo besta, diria eu ontem. A vida é um presente, eu disse há poucos dias. O tribunal de rua que decide se o avião deveria cair ou que o menor seja abandonado. Quem somos nós, locatários das verdades imensuráveis? Quem somos nós, portadores da foice, da corda e das balas de prata? Não me respondam, por favor. Tenho medo em saber. Tenho medo de que tamanha hostilidade me quebre o espelho. Mesmo aquele que revelaria a face que jamais conheceriam.

Quem se diz um livro aberto, mente. Quem diz não ter preconceitos, mente. O escritor, mesmo, é um mentiroso contumaz, um jogador. A mentira, por quase todo o tempo, é covarde, mas também será sinal de coragem, preguiça, carinho ou pura maldade. Um simples “vai ficar tudo bem”: ora alento, ora devastação.

Minha barba coça. Coço a cabeça e ativo micropensamentos: é tudo eletricidade! É tudo uma questão de estar ligado, falando ou calado. O cérebro não desliga nunca e a ignorância é uma letargia perversa. Um ser nunca faz mal apenas a si mesmo, tudo está conectado. Somos todos bobos, locatários da verdade, do bom gosto acima de qualquer suspeita. Nossas ideologias nos guiam ou nos aprisionam?

Somos um esquadrão da morte e, ainda assim, nos agarramos ao mastro do otimismo, que aponta para qualquer direção. Para onde vamos? Quem souber a resposta é um enganador. Crápula. Falsos profetas somos nós mesmos. Estamos cheios de gurus e sempre em busca de um salvador da pátria. A cada dia se sabe mais coisa, cai uma teoria e ergue-se outra. Sabemos tudo, tudo ligado. Je suis eletricistas.

Dedicado a Antonio Abujamra.

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