Ela me faz rir

Ela me faz rir. Não só porque ela não insiste em ser engraçada, gente que força a barra é um saco. E quando esqueço dos nove anos que nos separam, às vezes eu rio porque ela deixa todas as pistas espalhadas pelo caminho: quase uma eternidade. Eu nem vou falar das músicas que ela me manda ouvir. É engraçado que ela parece justamente a musa do poeta, com seus cachos e a pele morena distribuída por curvas suaves que até poderiam provocar um acidente.

Ela me faz rir quando me pede pra ficar. Mas aí já é um riso contido. A boca chega pertinho do ouvido e diz bem baixinho “Você não sai daqui”. E eu fico mais um pouco, vendo-a cair no sono. Eu, que naturalmente tenho sono meio pesado, com ela fica leve e sinto quando me abraça no meio da noite. É sempre lá pelas três. Ela me faz rir quando na manhã seguinte fala “peguei 20 reais da sua carteira” e que “estava sem trocado”. Fico pensando em que momento eu não acordei.

Ela me faz rir quase o tempo inteiro, até quando estou trabalhando e com os prazos estourando as veias da minha testa. Mesmo quando brigo e fico com raiva. Ela me xinga, faz uma cara de adulta um tanto convincente. Contei que ela faz teatro? Como gosta de testar minha paciência! A gente cai na gargalhada. O que me deixa triste, mesmo, são esses mais de 400 quilômetros que insistem em ficar entre nós.

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