A velha

Sua casa é amarela, a três de distância da minha, na direção crescente. Amarela como sua pele enrugada. Seu nariz arredondado com tantos furinhos lembra uma casca de laranja. Suas sobrancelhas, uma grande ironia. Apontam ao céu, como jogadores de futebol fazem quando comemoram o gol; seu marido detestava futebol e ela não perde um jogo do time de coração.

Vez ou outra, entro naquela casa. Em alguns dias dou muitas voltas, acelero o passo quando passo em frente, com medo do que vou ver ou ouvir. Faz tanto tempo que vou lá e a velha já era tão velha! Aquele cheiro de mofo que brota de cada cômodo é tão aconchegante que já nem me incomoda mais.

A velha sabe que eu gosto de músicas e poesia que eu nem sabia existir. Entende bem que é possível mentir com o olho no olho. Ela me ensinou que não se conhece ninguém por completo e sinceridade não está à venda. Acho que ela é minha amiga, mas ainda preciso exercitar essa minha falta de confiança: Algumas pessoas parecem boas por quase toda uma vida e, de repente, elas não estão mais lá. A velha disse que ainda vou me apaixonar de novo, embora ela mesma pareça não ter conseguido depois que seu velho se foi.

Essa velha tem nome, sim, mas a essa altura, que diferença faz? Deixa ser velha, que isso não é demérito algum. E ela parece me conhecer tão bem… Parece egoísmo, mas eu a visito sempre que sinto saudade de mim mesmo.

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