À Nossa Senhora do Desterro

Nossa Senhora do Desterro, rogai por mim. Eu, que nem sequer cogitei fugir para o Egito, fujo do amor como o Diabo da cruz. Em seu dia, 2 de abril, acenderei uma velinha, é promessa.

Ao fim do dia, quando o Criador descansa sua vigília e maridos espancam suas damas, eu busco a terra fértil a qual tento escapar. Que agonia, que aperto no coração. Esses homens violentos, que aos domingos pedem perdão a Ele, a padres e pastores, mandam suas amadas à merda. Peço desculpas apenas pela merda, ó virgem. Fui criado por mãe moderna, daquelas que nunca ligou para essas coisas, dizendo que há muitos pecados de verdade para se preocupar com meras palavras chulas. Ela ensinou, Madonna degli Emigranti, que esses não são dignos de sua atenção.

Creio que já estamos ficando íntimos, mãe de Deus. Hoje li uma matéria enorme num jornal de grande circulação e a discussão era sobre praticar o coito de olhos abertos ou fechados. Eram muitas teorias, que envolviam narcisismo e especialistas mensuravam graus de intimidade, veja só! E eu, que nunca tinha parado para pensar nisso, reparei que tanto faz se no claro ou no escuro, todos fecham os olhinhos por um tempo, diante de imenso prazer ou iminente perigo, como a queda de um avião. Por que ninguém fala com o Pai de olho aberto, mãezinha?

Quero agradecer, em forma de oração, por cada facada no peito que levei até aqui. É sério, a cada frustração superada ou a cada recaída desgraçada, sinto-me um pouco idiota depois de um tempo. Poxa, é tanta gente dizendo que há sofrimento maior – seu filho cheio de pregos e espinhos para nos salvar, hei de lembrar – e desvaloriza tudo que eu passei, que até paro para pensar se não tenho mesmo o direito de me afogar, de vez em quando, em minhas próprias mágoas.

Faço, enfim, um pedido. Porque todo homem tem que também que pedir ao santo, não basta agradecer. Peço coragem ao próximo amanhecer. Houve um pecador que gosto muito, de nome Charles Bukowski, talvez a Senhora não lembre dele. Ele dizia que o amor é um cão dos diabos, já ouviu falar? Pois é, imploro que me dê forças para enfrentar esse cão uma próxima vez e que, se tiver que ser, construa minha própria cruz.

Já ia esquecendo, em nome do Pai, do filho, do Espírito Santo, amém.

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