A Cadeira

Eu morri e fiquei ali sentado. Era uma cadeira bonita, dessas que não se vê mais por aí, só em brechó ou casa de gente velha. Da cadeira, tudo o que eu via era uma paisagem insólita e pessoas que eu conhecia; umas eu lembrava o nome, outras não, mas todos os rostos me eram familiares. Andavam, atravessam a rua, como se ali houvesse uma rua. Todos seguiam suas vidas, caso estivessem vivos. Morreram ou estavam absolutamente indiferentes à minha partida.

Está bem, eu estava sonhando. Acordei bem tarde e um caso suspeito de Ebola chegava ao Rio de Janeiro. Vejo todos em pânico, muito dele incentivado pela imprensa, mas só penso em tudo que vi na noite anterior. Aparentemente, vai ficar tudo bem. Só essa mão invisível que continua esmagando meu coração que, parafraseando Saramago, não é de ferro e sangra todo dia.

Eu não morri, logo se vê, e já estou rindo enquanto escrevo, enquanto penso em psicografia. Mas já houve dias que preferia passar do sonho. Já houve dias em que senti ódio mortal – envelheci tantos anos por isso – porque não consigo ser indiferente. Da cadeira onde estou, vejo as letras passarem e tenho apego a todas elas, que vão se jogando sobre a tela: umas voltam, outras ficam, todas quero por perto. Esta cadeira, a que me sento agora, não é aquela cadeira, é uma preta e nova, de escritório. Eu não quero ir atrás daquela cadeira.

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