As horas

Como você sente o tempo passar? Sem olhar no espelho, você sente as mudanças no seu rosto em relação a dois anos atrás? Teria o corpo a capacidade de precisão de um relógio suíço?

O cigarro se apagou, a cinza espalha aquela sujeira desagradável, cheia de vestígios. Depois que a última garrafa milagrosamente secou, e até a mosca, que rondava seu ouvido, até ela se cansou. Finalmente, você descansa. Descansa de tanto pensar, abraçando o silêncio absoluto, como a lua abraça o escuro da noite. As horas não vão lhe guiar.

Qual a melhor forma de se medir o tempo? O pescador conhece como ninguém os segredos do mar; sabe, sem olhar o relógio, o momento de sair e de voltar. E há quem não acredite em história de pescador.

Era noite, dessas não tão distantes que se precisa fazer força pra lembrar, eu estava pensando justamente no tempo. Aquelas reflexões que se faz pelo menos uma vez por ano. Adormeci, e o lúdico fez companhia ao real. Estava eu, de pé, sobre a pestana de um violão. O limite da vida, ali, era justamente até onde se fazem os acordes que definem sua canção. Alguém manipulava as tarraxas, elas estavam se movendo. O que são essas coisas que não vemos e nem sentimos e sabemos que estão ali?

Então, eu acordei angustiado. Não sabia por quanto tempo estive apagado, mas de fato, a cinza do cigarro caiu sobre o braço do sofá. E comecei a canalizar, coisa por coisa. O vinho ainda fazia efeito. Até que, como um acidente, um corpo que cai, a viagem é interrompida. De todos os acordos que fiz comigo mesmo, rompi os que não podia cumprir. Não se pode, mesmo, pensar em tudo, e a dúvida é uma corda invisível. As horas não podem sempre nos guiar.

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