Não vou sambar porra nenhuma

Essa é mais uma história sobre músicas que marcam a vida da gente. Quem perdeu um pai mais cedo que se espera (como se pudesse esperar por isso), sabe que “Naquela mesa”, de Sérgio Bittencourt, é capaz de arrancar lágrimas até nos momentos de pura alegria. Ainda que não seja muito bom com datas, sei exatamente a música que ouvi num dia marcante. Mas isso não é bem sobre mim ou você.

Eu e Juliana saímos da mesma escola pública para uma particular, quando passamos da quarta pra quinta série. Foi um choque, viu? Eu e ela andávamos sempre juntos, uma forma de proteger um ao outro daquela situação hostil, que é o medo de contato. Aquelas crianças não gostavam mesmo disso.  Enquanto na antiga, gostávamos de chão, terra, cair, ralar o joelho e os cotovelos, nossos novos colegas pareciam evitar a sujeira a qualquer custo. O negócio mesmo eram aqueles minigames, suas brincadeiras eram restritas aos polegares. A coleguinha, na tentativa de se enturmar e espoleta que só, praticamente implorava para que brincassem de coisas como “queimado” ou futebol. Ela era boa nisso na escola anterior, a única menina que jogava entre os meninos. Já eu, tímido desde sempre, acabei me isolando e observando tudo à distância.

Certo dia, entra em cena André, o temido filho da diretora. Juliana, já sacando sua liderança precoce, recorreu ao baixinho para finalmente fazer algo de que gostasse. “Ô garota, qual o seu nome?”. Ela já contava com o não, com aquele desprezo cruel que ocorre nessa época. Ninguém ali queria saber de nada mesmo… Foi só ela responder à pergunta, cinco levantaram. Gargalhada coletiva, a professora tentava conter a euforia da classe. Todos cantavam “a juliana não quer sambar… samba, juliana, samba, juliana”.

Berros, risos à campainha, alguns batiam na mesa e repetiam “samba, juliana” quinhentas vezes. A menina, pequena, não tinha ideia do que se tratava. Durante meses, ao invés de “bom dia”, era “samba, juliana”; “com licença”, “samba, juliana”. Os olhares e risinhos distantes pareciam planejar qualquer oportunidade de cantar. Juliana simplesmente não entendia o caos instaurado depois de dizer seu nome. Eu sabia desde a primeira risada, mas ninguém me perguntou.

Então, ela resolveu mudar de nome. Sim, era um jeito rápido de dar um basta naquilo tudo. Para todas as professoras, serventes, pediu que lhe chamassem por Cecília. Por incrível que pareça, o pedido foi prontamente atendido. Acho que ficaram mesmo com pena da garota, que ficava com o rosto todo vermelho a cada “samba, juliana”. O problema é que, para alguns que nem sabiam da história, Cecília era seu verdadeiro nome e, diferente do que ocorria sempre, seu pai foi buscá-la na escola. Era uma sexta-feira.

– Olá, vim pegar a Juliana, da quinta série.
– Juli, quem? Não tem nenhuma aluna com esse nome. – respondeu o porteiro recém-contratado.

Eu vi a cara do pai da Juliana. Era um pré-infarto. Mas “Cecília” avistou-o de longe e foi ao seu encontro. O porteiro não entendeu bem quando eles se abraçaram.

Chegou o dia em que levei um CD, que uma rádio distribuía na orla e que continha os principais sucessos do momento: só axé. Hora do recreio, a escola deixava os alunos usarem um rádio portátil na quadra. Entre onomatopeias e muita conotação sexual, Juliana finalmente entendeu que seu tormento vinha dos trios elétricos. Uma canção de letra incrivelmente repetitiva, que de samba tinha apenas o refrão, e era entoada por um grupo chamado Raça Pura. Estávamos todos sentados, calados, observando sua reação. Ela parecia ter engolido um morcego, um misto de enjôo e desprezo que nos deixava mais que apreensivos. Quando começava, mais uma vez, “A Juliana não quer sambar…”, ela se levantou:

– Sério, é isso que vocês ouvem? Não vou sambar porra nenhuma.

À querida Juliana Lopes.

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