A mão do carrasco

hangman_II_by_ZeNeyDefinitivamente, não pode cuidar de mais ninguém. Fabrício mandou um longo e-mail, dizendo que está mais que cansado. Explicou, do jeito dele, que cansaço já não o define. Não pode mais nos mimar e nos brindar com aquele sorriso, jurando como estamos bonitos. Ou como parecemos felizes. Tampouco posso tirar dele aquelas palavras de conforto a que todos nos acostumamos.

Amarrado. Grossas correntes o prendem pelos tornozelos à cadeira de onde me confessou. Todos dizendo ao cara que ele precisa se cuidar. Eu mesmo devo ter sido um deles. Fabrício jurou: um carrasco invisível fica bufando ao seu redor; seu hálito é nefasto. Toda vez que meu amigo esboça qualquer reação, o maldito ordena que se sente de volta.

Eu sugeri que chorasse, dizem que ajuda. Fez terapia, eu recomendei um profissional bacana. Ele tentou. Ouve apenas as mesmas canções, que cada vez doem menos. Em comum, a música sempre nos trouxe tanta intensidade, sabe? Aquela alegria demais, aquela tristeza envolvente… sempre nos empolgamos com os mesmos sons. Mas não, está imune. Também aos sorrisos e abraços. Pessoas andando devagar já o irritavam, agora as que andam rápido, também. Pessoas tristes ou felizes, não sente inveja, apenas quer distância. As imagens que essas criam de si mesmas, não o interessam mais.

Bebendo demais, fumando demais. Comendo demais e o coração vazio. Nessas palavras, senti esperança: “ainda está batendo, vai bater por um bom tempo”. Nós já passamos por momentos parecidos. Nessas horas, a raiva ou a frustração nos ajudam na volta por cima. É preciso explodir. Acredito muito nesse cara. Um monte de gente, sei que também põe fé, apesar dos que apenas querem pedir seus conselhos e nunca ouviram uma queixa sequer. Ele deveria se desculpar por se sentir assim? Claro que não, estar na merda nunca foi uma opção. A mão do carrasco é que anda pesando pra caramba.

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