Superfantástico

Noivado da Juliana. Famílias reunidas, música da pior qualidade tocando. Todos muito bêbados, sorridentes, abraços suados, beijos molhados. Noivo esfregando o rosto, depois de uma carreira no banheiro. A madrinha, Adriana, já terminava seu quinto discurso, cansou de cantar “Superfantástico” no karaokê.

Depois de avisar ao noivo que seu nariz apresentava com um “probleminha”, percebi a madrinha nos fotografando com seu iPhone. Fui em sua direção. Num impulso, arranco o celular de sua mão. Ela havia acabado de enviar a foto do flagrante a uma pessoa que não estava na festa. Eu conhecia a todos ali, Mariana não foi convidada. “Me dá isso aqui, fofoqueiro!”. Dri recupera seu aparelho, às gargalhadas.

Juliana e Adriana. Amigas com nomes rimando me dão um pouco de nervoso. Prefiro que não. Conheço ambas há pelo menos oito anos, quando ainda eram do Ensino Médio. Suas mães trocavam receitas ao telefone. Hoje, trocam vídeos reacionários de procedência duvidosa. O pai de uma torce para o time rival do outro. Viviam se provocando, já não o fazem mais.

– Sabia que o pai da Ju comeu a mãe da Dri? – perguntava Caio, o padrinho, em voz trôpega.
– Não. Isso tem muito tempo? Ele era tão amigo do Oswaldo…
– Uns três anos… O Vasco joga hoje? Será que vai passar no telão?

A noiva e Caio, tenho certeza, eram apaixonados um pelo outro. Afastaram-se quando esta começou a namorar Fernando, mas ouvi dizer que encontraram-se algumas vezes para além de um bate-papo amistoso. Já faz algum tempo que Dri não me diz nada. Ela se aproxima:

– Tu acredita que a Ju vai se casar antes de mim? Tu não acha ela meio chatinha, às vezes?
– Olha, até eu, que sou legal pra caramba, acordo chatinho todo dia. – gracejei, enquanto observava um pouco de sangue saindo de uma de suas narinas. Tentei avisar.
– Espera aí que vou pegar mais uma caipivodka. Quer?
Fiz que não.

– Cara, a Dri tá cheirando no meu noivado? Porra, é tão egoísta que não segura esse fogo nem hoje? Pra que fui chamar pra madrinha? – Era a primeira vez que eu falava com a noiva desde que eu tinha chegado.
– Vocês são melhores amigas. Lembra dos depoimentos no Orkut? BFF…
– Pô, cara. Nem best, nem friend, que dirá forever. Mas ia chamar quem?

Dri volta. As duas se abraçam. “Ai, amiga, tô tão feliz por você”. Gosto de observá-las nas redes sociais. Seguem uma à outra no twitter, no instagram; escrevem frases motivacionais direcionadas no Facebook, geralmente contra as “invejosas”.

Porrada. Padrinho e noivo. Pais incorporam a famosa turma do “deixa disso”, mas Oswaldo acerta um soco no pai da Juliana. Não lembro o nome dele, mas este ficou furioso. Briga generalizada. Polícia, mas ninguém é preso. Todo mundo aperta as mãos diante dos homens de farda.

– A gente pode se ver? – mensagem da noiva na tarde seguinte.
– Sei lá, como é que a gente faz?
– Passo aí na tua casa à noite.

Contou-me tudo que eu tinha descoberto ontem, em poucas horas, e tentei esboçar surpresa todo o tempo. A menina tinha cólera nos olhos. Adriana devia, como dizem, estar com a orelha quente. Metade dos presentes na cerimônia também. Perguntei o que ela ia fazer em relação a tudo que acabara de despejar.

– Nada. Ela ainda é minha amiga, né?

Dri, amiga do Caio, que era apaixonado pela Ju, noiva de Fernando. Seu Oswaldo parecia de mau humor da última vez que o vi, mas todos se cumprimentam. O casamento está marcado, a bênção de todos. Parecem tão felizes. Menos Mariana, que não foi convidada.

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