Um adeus de metrô

Os olhos inchados e profundos já entregavam uma noite mal dormida, e lágrimas, antes de sentar-se ao meu lado para esperar metrô. Lágrimas aquelas que eu tinha visto minutos atrás, quando o sol escancarava aquela situação pré-estação subterrânea.

Ela era linda. Apenas isso, como se pudesse ser apenas linda. O cabelo preso em rabo de cavalo e a ausência de maquiagem – apesar de bem vestida – entregavam alguma pressa ao sair. Cruzávamos a avenida, quando percebi que ela secava os olhos. E aquilo partiu meu coração, como se eu tivesse visto uma criança com fome. Eu só pensava em falar com ela, porque sentia que precisava ajudar. O medo de ser inconveniente prevaleceu.

Já ao meu lado, dentro da estação, ela apenas me olhou e respirou fundo. A moça tinha hematoma nos braços, como se a tivessem apertado com força. Ensaiou um riso, num esforço descomunal em ser simpática. De alguma forma, eu sabia que, o que quer que fosse, tinha acabado instantes atrás. Estava feito. Abaixou a cabeça e subitamente me dirigiu: “Não se assuste, foi só um adeus. Um casamento lindo virou um adeus. O conforto do abraço… Um abraço e acabou”. Passou o primeiro trem, ela chegou a levantar e sentou novamente. Então, o pranto desabou. Segurou minha mão e viu minha aliança: “Seja o que for, converse. Assume seus erros e faz com que seu pensamento não se confunda.”. Eu não entendia direito. Não abri a boca um minuto sequer. Mas sinto que foi o suficiente, e compensou a falta de coragem do lado de fora. Ali se juntavam os estilhaços de um coração, preparando-se para seguir em frente. E eu tenho um pouco a conversar.

Música que inspirou: Tatá Aeroplano – Te desejo, mas te refuto

Publicada originalmente em Crônicas do Underground.

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