Tapa na Cara

Excluindo-se assédio ou provocação, não há nada mais íntimo que um tapa na cara.

Depois que o dedo toca a garganta, o inferno parece ser a única salvação. Depois de tudo, algumas vão e vulgarizam o batom vermelho. Não que os homens tenham direito a opinar sobre a cor com que as damas se pintam, mas se morre a surpresa da cor, vira efemeridade; transforma a faísca – essa que precede um incêndio – em mera brasa de fim de carvão.

A rotina exclui o encanto da conquista. Sem essa de uma conquista por dia, ninguém tem fôlego pra isso. Manter a respiração, nesses casos, é, como diz o cantor Carlos Posada, o exercício diário da paixão. Quem não respira, faz do peito a morada do vazio. Depois do dedo na garganta, não existem amenidades. A coisa mais íntima – tapa na cara – vira, de fato, a única que existe.

 

Publicado originalmente em Colesterol | 20/02/2014

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *